45 anos de um marco na prosa


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Rodrigo Fonseca
Finalizando o esperado “A Paixão Segundo GH”, com base no romance de Clarice Lispector, Luiz Fernando Carvalho revolucionou todas as noções plásticas e filosóficas da imagem, na fricção de Tempo e Espaço, no cinema brasileiro, em 2001, quando levou Lavoura Arcaica às telas, conquistando 52 prêmios internacionais. Conquiste troféus em Biarritz, Montreal, Lima, Havana, Trieste, Valdívia e em mais uma cidade – incluindo Brasília, de onde saiu com seis turistas -, levando cada uma delas a memória de um livro seminal para uma língua portuguesa, que completa 45 anos em 2020. Seu autor, Raduan Nassar, chega aos 85 anos no próximo 27 de novembro.
Dizem quem lê Marcel Proust e se apaixona por sua maneira habilitada de brincar com a cadência de memória que toma por e fica, eternamente, curando uma ressaca sinestésica de sua cachaça literária. “Lavoura arcaica” tem efeito parecido. Tanto em relação ao livro, de Raduan Nassar, quanto ao filme, de Carvalho. Especialmente este último provocou um erro de euforia e dessalinização, quase como em um paradoxo. E as duas sensações são afluentes de uma mesma e caudalosa água: uma liquidez da transgressão. Euforia se dá pelo fato de um choque estético causado pela prosa de Nassar em Luiz Fernando ter conduzido ou cineasta a um filmar da maneira mais pessoal possível, sem fronteiras mercadológicas e sem compromissos teóricos. A razão do dessalento: uma impressão de longa metragem de parecer uma obra isolada dentro do cinema nacional lançado em 1995 para cá.

Exuberante, o trabalho de Luiz Fernando pode constituir uma exceção na pangéia latino-americana se não exibir a exibição “Hamaca paraguya”, de Paz Encina, no Festival de Cannes de 2006. “Acidente” (2007), uma deslumbrante partitura documental dos mineiros Cao Guimarães e Pablo Lobato, também sugere que Carvalho não é tão único assim. Mas poucos foram os realizadores que devotaram tanto à busca por uma sintaxe inovadora capaz de associar uma fúria criativa da palavra literária com o apetite voraz da câmera. Feliz comparação deste diálogo do audiovisual com o texto de Raduan Nassar com “Limite” (1931), de Mario Peixoto, apontado em sua estréia pelo crítico Carlos Alberto Mattos torna-se ainda mais pertinente conforme a produção contabilizada primaveras. Ambos falam de tempo. Ambos tratam o tempo como Tempo, com o timbre que ressalta sua divindade. Para Peixoto e Luiz Fernando, o Tempo é quase um deus. Uma força demográfica que parece violar os homens com fome de vitalidade, mas que é capaz de compensar-los com iluminação, com conhecimento. É sobre isso que versa a parábola do jovem que quer ser profeta de sua própria história. Ela versa sobre a incapacidade que o ser humano tem de aprender com a Eternidade, tocando sua música sem obedecer a passos rígidos.

Fotografado de modo físico por Walter Carvalho, “Lavoura arcaica”, ou filmes, tenta traduzir em um tom imaginário a importância da ancestralidade no caminho de cada um. Escreva sobre o produto final do esforço de Luiz Fernando, que será dividido em páginas de Nassar à caça de uma linguagem até a altura de sua história, talvez seja menos importante do que caminhar no processo inverso e estudar suas fundações. Uma ancestralidade que alimenta como palavras rebeldes de André, um Hamlet caboclo inconformado com a obrigação de sujeitar ao Pai, foi buscada na experiência de cada ator, de cada técnico, do próprio diretor, em um processo de imersão realizado ao longo de quase cinco meses de ensaio, em uma fazenda em Minas. Em um cenário semelhante ao ambiente de drama de André, Selton Mello (em uma atuação monumental), Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Caio Blat, Simone Spoladore e outros desenham uma fronteira que separa o eu-ator do personagem, transitando no limiar do encontro entre essas duas potencialidades, extraindo delas uma verdade rara na maneira de atuar.

Embalado pela música de Marco Antônio Guimarães, “Lavoura arcaica” já é um filme gigante apenas na jornada de Walter Carvalho, como diretor de fotografia, para buscar a história das artes plásticas, uma luz que sintetiza ou o chiaroscuro daquele mundo rural rural ensimesmado no seu próprio ethos. Ao deus Tempo, Walter e Luiz Fernando respondem visualmente com outra divindade: a terra. Toneladas telúricas desenham a agonia de André, encarnadas na metralhadora verbal que Selton Mello dispara de forma implacável, vomitando palavras mais personalizadas no palco shakespearianos do que em um latifúndio distante da urbanização. “Lavoura arcaica” pode (e deve) ser aproximado de outro exercício de investigação lingüística, interessado em personagens de origem árabe e escolhas entre uma tradição e a modernidade: o documentário franco-marroquino “Transes” (1981), de Ahmed El Maanouni. O .doc foi restaurado e preservado no início de 2007 por iniciativa do realizador americano Martin Scorsese. Ao medir ou afetar a sonoridade de um grupo de músicos, influenciado pelos filhos das ruas, “Transes” exercitados pela seara da sensorialidade, testando os limites da recepção do espectador. É exatamente o que Luiz Fernando fez. Mexeu com a própria alfabetização audiovisual dos cinéfilos brasileiros. E comoveru placas para fazer algo novo (e único) soar tão familiar. Com o cheiro da infância. Com a indolência da adolescência. Com uma coragem da vida adulta. Como o bom cinema deve ser.



Fonte: Post Completo